Clínicas e Terapias
Como calcular a margem de lucro da clínica por terapeuta
A DRE da clínica inteira esconde quem sustenta a operação e quem só ocupa agenda. Como separar receita, custo direto, ocupação de sala e rateio administrativo para chegar ao resultado de cada profissional.
Publicado em

A pergunta que quase toda clínica multidisciplinar sabe responder é quanto faturou no mês. A que costuma ficar no ar é qual profissional deixou resultado — e qual trabalhou o mês inteiro para empatar.
A DRE da clínica inteira não responde isso. Ela soma tudo e devolve um número só. Para saber onde o resultado é feito, é preciso abrir a conta por profissional.
Os quatro blocos que precisam ser separados
1. Receita do profissional
Tudo o que a agenda dele gerou no período, separado por origem: particular e convênio. A separação importa porque o particular entra quando o atendimento acontece e o convênio entra depois da auditoria da operadora, com prazo e valor próprios.
Atendimento executado e ainda não pago não é receita realizada. Ele entra como faturado, e a diferença entre faturado e recebido é justamente o que a maioria das clínicas não mede.
2. Custo direto
O que só existe porque aquele profissional atendeu:
- repasse ou comissão, quando o modelo é de percentual;
- salário e encargos, quando é CLT;
- material de consumo específico da especialidade;
- custo de avaliação e relatório, comum em terapia infantil, quando não é cobrado à parte.
3. Custo de ocupação
A sala existe, custa e é usada por horas. O caminho mais simples é dividir o custo mensal do espaço pelo total de horas disponíveis e multiplicar pelas horas efetivamente ocupadas por cada profissional.
Esse número tem um efeito colateral útil: ele mostra a ociosidade. Sala vazia não aparece na DRE tradicional, mas aparece aqui, como custo que ninguém cobriu.
4. Rateio administrativo
Recepção, secretaria, sistema de agenda, contabilidade, energia, limpeza. É a estrutura que serve a todo mundo, e por isso precisa de um critério de divisão declarado — por hora ocupada, por receita gerada ou por número de atendimentos. Qualquer um funciona, desde que seja o mesmo todo mês.
O que a conta revela
Com os quatro blocos separados, cada profissional tem uma linha própria:
| Terapeuta A | Terapeuta B | |
|---|---|---|
| Receita realizada | R$ 18.000 | R$ 12.000 |
| Custo direto | R$ 9.000 | R$ 4.800 |
| Ocupação de sala | R$ 2.400 | R$ 1.200 |
| Rateio administrativo | R$ 2.700 | R$ 1.800 |
| Resultado | R$ 3.900 | R$ 4.200 |
O profissional que fatura 50% a mais deixa menos. Não é hipótese de manual: é o que acontece quando o repasse é alto, a sala é grande e a agenda tem buraco. Sem o recorte, a clínica olharia só a receita e chegaria à conclusão oposta.
O que fazer com o número
Abrir a margem por profissional não serve para julgar ninguém. Serve para decidir:
- Renegociar o repasse de quem tem custo direto acima do que a receita sustenta.
- Reorganizar a agenda, concentrando horários para liberar sala em vez de manter duas parcialmente ocupadas.
- Rever o convênio que paga abaixo do custo do atendimento — muitas vezes é um plano específico, não todos.
- Ajustar o preço do particular na especialidade em que a conta não fecha.
Por onde começar
Não é preciso ter sistema de BI para dar o primeiro passo. É preciso ter três coisas registradas de forma separada: receita por profissional, custo direto por profissional e horas de sala ocupadas. O resto é rateio, e rateio é critério, não tecnologia.
O que costuma travar não é o cálculo — é o fato de a informação estar em três lugares diferentes: a agenda, o extrato bancário e a planilha de repasse. Enquanto elas não conversarem, o número não sai.